Governo acaba de liberar agrotóxico potente que foi proibido pela Anvisa

Há algum tempo publicamos uma matéria sobre o “Pacote do Veneno”, um conjunto de projetos de lei que facilitariam a aprovação, comercialização e utilização de agrotóxicos nas lavouras brasileiras.

Essa iniciativa, que poderá afetar negativamente a saúde do brasileiro, já começa a dar os primeiros passos. Prova disso é a liberação de um potente agrotóxico, que até pouco tempo era proibido.

Takepart, http://www.takepart.com/article/2014/04/09/pesticide-drift/Takepart

– Perigo | Não entre

Na primeira semana de novembro de 2017, a Anvisa anunciou a liberação do benzoato de emamectina, um agrotóxico que já havia sido estudado para uma possível aprovação. Mas na época, devido aos efeitos neurotóxicos marcantes, a própria Agência negou a liberação.

estudo de 2010, que segundo o site do Greenpeace, sumiu misteriosamente do site oficial da entidade, foi pontual quanto a alta periculosidade da substância. Confira um trecho do documento:

“Os efeitos neurotóxicos são tão marcantes e severos que as respostas de curto e longo prazo se confundem, isto é, efeitos tipicamente agudos são observados nos ensaios de longo prazo, e vice-versa. O produto revelou neurotoxicidade para todas as espécies e em doses tão baixas quanto, por exemplo, 0,1 mg/kg em camundongos e 0,5mg/kg em cães, mesmo em estudos onde este efeito não estava sendo investigado.

Incertezas no que diz respeito aos possíveis efeitos teratogênicos, e certezas dos efeitos deletérios demonstrados nos estudos com animais corroboram de forma decisiva para que não se exponha a população a este produto, seja nas lavouras, ou pelo consumo de alimentos”

De acordo com as informações divulgadas pela própria fabricante do agrotóxico, o benzoato de emamectina pode causar irritação nos olhos e na pele; se inalado pode causar irritação do trato respiratório e pneumonites químicas. Sua ingestão provoca efeitos do sistema nervoso central, como tremores musculares, fadiga, incoordenação ou instabilidade e dilatação pupilar.

Já para o meio ambiente, ainda de acordo com a fabricante, o agrotóxico é muito tóxico para as abelhas (fundamentais para a saúde de qualquer ecossistema) e organismos aquáticos, podendo causar efeitos adversos a longo prazo à esse ecossistema.

Pinterest, https://br.pinterest.com/pin/532409987170203607/?lp=truePinterest

– Você também vai comer isso usando uma máscara?

Mas como assim, Anvisa?

O produto, devido ao seu alto poder de “destruição”, foi inclusive utilizado em 2013 (sem aprovação da Anvisa), quando as lavouras da Bahia sofreram um surto de pragas. O Ministério da Agricultura importou o produto em carácter emergencial para ser usado unicamente naquela situação, que foi alarmante.

Mas se ele foi importado, então o agrotóxico é liberado em outros países. Isso significa que, no fim das contas, tudo bem os brasileiros usarem também, certo?

Nada disso! De acordo com a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), existem outros produtos já liberados, 24 no total, que também são igualmente eficientes para essa situação, ou seja, não havia uma real necessidade da aplicação desse produto.

Segundo a ativista Roberta Nader, um ponto importante é o fato de que este tipo de agrotóxico já é usado aqui em nosso país de forma ilegal, chegando ao Brasil através de contrabando.

Conexão Tocantins, http://conexaoto.com.br/2016/04/04/prf-apreende-no-tocantins-agrotoxico-contrabandeado-da-chinaConexão Tocantins

– Apreensão de 225kg de benzoato de emamectina contrabandeado, Tocantins

Essa nova praga que atingiu a Bahia, uma espécie de lagarta chamada Helicoverpa Armigera, chegou recentemente em nosso país e, embora tenha sempre existido, tornou-se uma praga perigosa graças ao uso dos próprios agrotóxicos, que matam seus predadores naturais, como os pássaros.

O despreparo e a necessidade em exterminar a lagarta para aumentar o lucro, resultam nessa iniciativa tão perigosa.

“Ao introduzir mais um agrotóxico nas nossas lavouras já encharcadas de venenos, um agrotóxicos que, como a própria Emprapa apontou, é perigoso também para abelhas e outros insetos, não estaremos, ao tentar matar uma lagarta, deixando o ambiente propício para o aparecimento de novas pragas, que estão neste momento equilibradas? Não percebemos que estamos tentando apagar o incêndio com gasolina?” – desabafou Nader.

Rural Pecuária, http://ruralpecuaria.com.br/tecnologia-e-manejo/pragas/helicoverpa-armigera-qual-a-situacao-atual-da-praga.htmlRural Pecuária

– Helicoverpa Armigera, a lagarta que chegou recentemente nas lavouras brasileiras.

A ativista ainda levanta outra reflexão sobre quem está por trás da aprovação de toda essa liberação dos agrotóxicos. Será que merecem nosso crédito?

“Você confia que as mesmas pessoas que burlavam as leis do nosso país para jogar no que você come um veneno proibido, comprado no mercado negro, serão as mesmas pessoas que agora declaram que vão usar o veneno dentro dos limites da bula e com os cuidados necessários?” – questiona Roberta Nader.

De acordo com um nota publicada pela Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida, além da falta de divulgação do processo, a rapidez com que a decisão foi tomada foge do tempo comum que uma decisão desse tipo levaria.

A liberação para um outro produto parecido chegou a levar 20 meses, já para o benzoato de emamectina a decisão saiu em apenas 21 dias, um tempo recorde! E tudo isso “na surdina”, sem que o povo, os maiores interessados (e afetados) nessa história, tomassem conhecimento e pudessem argumentar sobre a decisão.

Para Roberta Nader, só por essa maneira com a qual a liberação foi feita, já era motivo para nos causar preocupação.

Mudança de opinião

Analisando toda essa situação, fica bem difícil de imaginar o que de fato fez a Anvisa, em apenas 7 anos, mudar drasticamente seu posicionamento sobre o agrotóxico.

Nader questiona o fato desse tipo de agrotóxico e muitos outros receberem liberação para uso e ainda serem classificados como “não prejudiciais à saúde”:

“E se os agrotóxicos são tão tranquilos quanto os agrônomos dizem, porque eles não entram nos rótulos de composição do produto final, como entram os conservantes, edulcorantes, etc.? Por que nós não ficamos sabendo quais os venenos foram utilizados nas frutas, folhas e principalmente nos grãos que comemos e decidimos se queremos ou não comprar?

Mas a verdade é o contrário, o Senado Federal toda hora coloca em votação projetos de lei para tirar do rótulo dos alimentos o T de transgênico. Por quê? Se eles dizem que os transgênicos são seguros, porque se preocupar tanto em fazer uma lei para escondê-los do consumidor? O mesmo vale para os agrotóxicos“.

The Great Gathering, http://thegreatgathering.org/conventional-agriculture-and-the-exploitation-of-migrant-workers/The Great Gathering

Além do estudo de 2010 não estar mais disponível no site da Anvisa, esta nova pesquisa, que foi usada como argumento para o registro e liberação do agrotóxico, ainda não foi apresentado pela entidade. Ou seja, a população continua sem saber qual foi o motivo dessa mudança completa de opinião.

De qualquer forma, o Greenpeace afirmou em nota que exigirá a apresentação desses novos documentos, além do cancelamento dessa liberação até que a sociedade seja ouvida e consultada se está disposta a correr este risco.

Já Basta de Veneno!

Conforme pontuado pela ativista, a quantidade de veneno que estamos consumindo não é pouca. De acordo com este estudo, realizado pela Universidade Federal do Mato Grosso, em 2013 cada brasileiro consumiu cerca de 4,5 litros de veneno, sendo que 14 deles são proibidos em outras partes de mundo.

E pelo menos um desses agrotóxicos, o Endosulfan, prejudicial ao nosso sistema reprodutivo e endócrino, aparece em 44% das 62 amostras de leite materno analisadas pelo estudo. É isso mesmo, crianças recém nascidas já estão sendo contaminadas.

Para os que ainda apoiam o uso dos agrotóxicos nas lavouras

A justificativa usada é que existe dificuldade em produzir grandes quantidades de alimentos de forma orgânica sem impactar tanto o meio ambiente. Caso contrário, segundo alguns agrônomos, a escassez pode trazer ainda mais fome ao mundo.

Mas a verdade é outra. Existem diversas maneiras de produzir orgânicos sem destruir o meio ambiente, como é o caso da permacultura ou agroflorestas, como detalhamos nesse artigo.

Sobre a fome, Roberta Nader foi categórica ao afirmar que ela não está relacionada com a produção, mas com a distribuição. Ou seja, não é a falta de alimento o problema, e sim o acesso à ele. Conforme falamos nesta matéria, produzimos muito mais alimentos do que consumimos.

“Ainda que eu aponte dados, números, reflexões, acho que essa é uma questão muito mais íntima. Ela é uma questão de olharmos para dentro de nós e pensarmos: o que eu quero colocar para dentro do meu corpo? Isso não deveria ser uma escolha minha? Ou eu vou abrir mão da decisão mais íntima da minha vida e deixá-la na mão de alguns deputados e senadores que, pelo sim pelo não, eu não confiaria nem para segurar minha bolsa por alguns instantes? – finaliza Roberta Nader.

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Source: http://sossolteiros.bol.uol.com.br/governo-acaba-de-liberar-agrotoxico-potente-que-foi-proibido-pela-anvisa/

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